Literatura

Doze contos peregrinos, Gabriel García Márquez (1992)

doze_contos_peregrinos_1229343485bPublicado em 1992, Doze contos peregrinos reúne contos e crônicas criados ao longo de dezoito anos por Gabo e trazem de alguma forma personagens fora de sua terra natal: imigrantes, viajantes, turistas e outros peregrinos povoam as diferentes histórias do livro.

“o esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance”

É a primeira obra de Gabriel García Márquez que leio e logo no primeiro conto, Boa viagem, senhor presidente, a minha atenção não foi fisgada de imediato. Deixei o livro de lado por um tempo e, após quase perdê-lo numa caixa de doação, retomei a leitura para me surpreender com a beleza do estilo de Márquez.

Entre os doze contos, destaco o assustador “Só vim telefonar”, sobre uma mulher que ao pegar carona em um ônibus de um hospício é confundida e aprisionada como se fosse mais uma paciente da instituição. Em Maria dos Prazeres uma prostituta de 76 anos planeja o seu funeral por acreditar que a morte está próxima. O fantástico atinge o auge em A luz é como a água, com crianças que quebram lampadas para nadarem no apartamento alagado de luz que jorra pelos soquetes. O livro é encerrado com O rastro do teu sangue na neve que narra uma viagem romântica que vira um desencontro perturbador agravado pelas dificuldades de se estar em terra estrangeira.

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O universo numa casca de noz, Stephen Hawking (2001)

dc8a4b11d43378b005d4b670c27c92c1af45f93fA proposta de Stephen Hawking em O universo numa casca de noz é explicar com uma linguagem acessível e várias imagens os princípios que controlam o universo. Teoria da relatividade, mecânica quântica, princípio da incerteza, viagem no tempo, buraco negro e tantos outros pormenores são abordados por Hawking de forma bem-humorada.

Mas o bom humor do físico não é o suficiente para tornar o conteúdo do livro totalmente digerível para quem vive distante do mundo das Exatas. Quanto às ilustrações, a edição de bolso (Ed. Nova Fronteira – Saraiva de Bolso) tem imagens pequenas e não coloridas, tornando mais frustrante a leitura.

Os Sertões, Euclides da Cunha (1902)

20111013225000Em aulas de literatura no Ensino Médio é comum ouvir que Os Sertões são um relato jornalístico e literário da Guerra de Canudos que recrimina o nacionalismo e ufanismo da sociedade brasileira da época, denuncia as atrocidades do exército e louva a resistência do sertanejo, o forte Hércules-Quasímodo. A obra resumida dessa forma faz crer que Euclides da Cunha foi um republicano às avessas que pela literatura retratou as atrocidades do exército em sufocar um movimento considerado monarquista pelo governo.

A denúncia das ações truculentas do exército realmente estão presentes em Os Sertões, mas não é o que se sobressai ao longo das mais de 600 páginas do livro. O que Os Sertões têm de mais marcante é a frequente variação estilística do texto, chegando a adotar pontos de vistas aparentemente contraditórios. O caráter jornalístico da obra abusa do embasamento em obras científicas, enumeração de dados e citações de estudos e teorias que hoje são consideradas ultrapassadas ou até condenáveis. Nesse caso, o mais angustiante é ler páginas e mais páginas apoiadas em absurdos que versem sobre a superioridade da raça europeia em oposição ao resistente mestiço sertanejo, que é “antes de tudo, um forte”.

A leitura torna-se cansativa com o exagero de dados, que vão de coordenadas geográficas, a datas de batalhas, nomes de oficiais e regimentos. O texto fica menos enfadonho quando caminha para o fim, mas é aqui que as contradições se destacam, pois em um momento o narrador exalta as ações dos heróis do exército em combater os rebeldes monstruosos. Em seguida, o narrador lamenta o excesso de crueldade com que os soldados tratam os prisioneiros das batalhas, mas isso não significa que o narrador conscientizou-se sobre os exageros da guerra: nas páginas seguintes é retomado o discurso oficial de exaltação do heroico exército que expurgou os males da terra.

Para quem se interessar em aprofundar a leitura de Os Sertões, recomendo o artigo “A ontologia discursiva de Os sertões”, de Leopoldo M. Bernucci, disponível na plataforma SciELO.

Estorvo, Chico Buarque (1991)

estorvo-chico-buarque-ed-cia-das-letraA campainha toca e pelo olho mágico o narrador analisa a imagem distorcida do homem bem vestido. O melhor a fazer é ignorar a campainha e fugir. Por que? Pode ser uma ameaça. É nessa paranoia inicial que começamos a acompanhar a narrativa de Estorvo, primeiro romance de Chico Buarque.

“Chego a perceber o fluxo do silêncio, e é como um silêncio que viesse por baixo do chão, e o chão se enrolasse feito tapete que fosse abafando todos os sons até o outro lado da avenida.”

A narrativa em primeira pessoa mescla descrições de acontecimentos presenciados pelo narrador, algumas de suas memórias e outras situações imaginadas sobre a vida privada de outros personagens. Como se um longo e delirante sonho estivesse sendo relatado na tentativa de reconstruir os fatos e encontrar o fio da meada.

“Depois de certa idade, acho que o acervo de sonhos se esgota, e eles começam a reprisar. Mas como nada é totalmente péssimo, a memória de um velho também enfraquece, e ele já não tem certeza se sonhou aquele sonho ou não.”

Narrador e demais personagens não são nominados e a ausência de nomes passa quase despercebida na leitura. A progressão da história tem um ritmo circular com a repetição de cenários e o narrador sempre em movimento, saindo ou entrando em algum lugar, reforçando a sensação de fuga e desesperança. A história angustiante não torna o narrador mais simpático ao leitor, pelo contrário: a relação mecânica e interesseira com a irmã rica, a distância da mãe e as visitas inoportunas no trabalho da ex-esposa são alguns momentos que tornam irresistível relacionar o caráter do narrador ao título do livro.

Amar é Crime, Marcelino Freire (2015)

Capa Amar e Crime DSO livro de contos Amar é Crime foi uma boa surpresa para eu que ainda não conhecia a escrita de Marcelino Freire: um texto rápido, sem rodeios, permeado pela prosa poética de linguagem coloquial e sem pudores.

“E o gringo me trazia colar. Anel, corrente. o gringo me encheu de tudo. Menos de roupa.

Cada vez mais nua, porra.

Cada vez mais pelada.”

Cada conto expõe uma figura marginalizada em situações à flor da pele diante do amor, suas tragédias, do ódio. A violência do amor em excesso e a desolação da falta de amar em personagens que buscam sobreviver aos seus dramas existenciais, às injustiças sociais, ou simplesmente desistiram de tudo.

“Lágrima em rosto de velho é chuva. Sai enchendo rios secos. Profundos deslizamentos.”

O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago (1984)

ricardoreisEm 30 de novembro de 1935 morreu Fernando Pessoa. Ricardo Reis, o heterônimo monarquista, mudou-se para o Brasil em 1919, mas a morte de Pessoa fez com que Reis voltasse a Portugal, encontrando um país dominado pela ditadura de Salazar.

“certas perguntas são feitas apenas para tornar mais explícita a ausência de resposta”

A escrita de O ano da morte de Ricardo Reis mantém o estilo indireto livre de José Saramago, mas a leitura pode ser mais cansativa com a densidade do texto que reflete a apatia de Ricardo Reis em relação a tudo que acontece em seu país. Enquanto não vaga pelas ruas de Lisboa, Reis dedica-se a longas e mecânicas leituras de jornais, dando nos um panorama de como a imprensa foi uma grande aliada das ditaduras europeias

“a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz”

A princípio, Ricardo Reis acompanha as notícias com o mesmo pouco caso com que lê os anúncios publicitários, mas o fantasma de Fernando Pessoa, em suas ocasionais visitas, provoca Reis a enxergar os verdadeiros problemas que as notícias oficiais ocultam. Os diálogos entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa são trechos preciosos do livro e transbordam de referências às obras poéticas de Pessoa e seu heterônimo.

“é essa a grande diferença que há entre os poetas e os doidos, o destino da loucura que os tomou”

Publicado em 1984, O ano da morte de Ricardo Reis retrata um Portugal cego e anestesiado pelo salazarismo. Um povo tão amedrontado pela “ameaça comunista” que saudava alguns de seus vizinhos por estarem sobre a proteção de Mussolini, Franco e Hitler.